Muitos leitores chegam ao Territórios em busca de nossas experiências na natureza e fotografias de animais. Por isso, é meu dever alertar sobre determinadas atividades que parecem fofas, divertidas e educativas, mas a realidade é sofrimento para os animais que tanto amamos. Aproveito o Dia Mundial da Vida Selvagem para mostrar quais atrações adoradas pelos turistas devem ser evitadas, quais seriam as alternativas menos agressivas e o principal, vida selvagem nem sempre é entretenimento.
Sobre o Dia Mundial da Vida Selvagem
Em 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) determinou o 3 de março como o Dia Mundial da Vida Selvagem para celebrar a fauna e flora do planeta. Data criada no dia em que foi assinada a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas, documento que reforça a responsabilidade dos Estados e das pessoas como protetores da fauna e da flora. Nos últimos anos, tenho divulgado a data com alerta e exemplos, como contei aqui e aqui.
Vida selvagem nem sempre é entretenimento
Eu mesmo já fiz várias coisas que pareciam inofensivas na época e hoje compreendo que deveria ter avaliado melhor antes. Também já conheci empresas e projetos que conseguiram unir turismo e preservação da vida selvagem com mínimo impacto. Digo mínimo porque sou realista e é impossível ter zero impacto do jeito que anda o nosso planeta. Um paraíso isolado no meio do Pacífico pode estar sofrendo silenciosamente porque, do outro lado do mundo, alguém está fazendo algo errado.
Portanto, não sou radicalmente contra zoológicos ou santuários abertos ao público. Alguns foram criados justamente para preservar o habitat natural das espécies ameaçadas pelo crescimento desordenado das cidades. Considero errado trazer espécies de outros lugares e colocá-las em cativeiro para o entretenimento humano. Considero certos locais delimitados para proteção e reabilitação de animais naturais daquele ambiente. E estes serem abertos moderadamente ao turismo de observação ou voluntário. Dizem que verdadeiros santuários permitem pouca ou nenhuma interação com animais. Concordo, e este seria o mundo ideal se houvesse dinheiro suficiente para bancar toda a estrutura exigida. Enquanto inexistente, não é de todo ruim usar o interesse do turista para financiar a preservação, desde que o lucro não esteja envolvido.

Quanto mais viajo, mais aprendo e reflito sobre o certo e o errado. E uma das coisas que mais me incomoda é o radicalismo de um lado ou de outro. Opto pelo equilíbrio e rumo natural das coisas porque, se usar os esforços para proteger só uma parte, vai causar desequilíbrio em alguma outra. E é possível sim encontrar entretenimento na vida selvagem, basta pesquisa e reflexão para fazer as melhores escolhas.
Exemplos de turismo predatório e alternativas para interagir com animais
MONTAR EM ELEFANTES, DROMEDÁRIOS…
Eles são arrancados da natureza e passam por treinamento desde bebês para aceitarem serem tocados e montados. Passam a vida presos e machucados só para o turista dizer que andou no bicho. Isto eu não fiz e nunca vou fazer. Elefantes são meus animais preferidos e não esquecem se foram bem ou mal tratados.
Na África existem santuários fazendo um importante trabalho de resgate de elefantes e rinocerontes órfãos, como o David Sheldrick Wildlife Trust.

VISITAR AQUÁRIOS
Sempre fui fã de aquários até conhecer a vida marinha sem vidros em seu habitat natural. Mergulhar com cilindro ou snorkel está entre as coisas mais incríveis que eu já fiz na vida. Não precisa tocar, alimentar ou interagir, basta viver a emoção de estar ali. E para quem tem medo, existem hotéis e restaurantes com paredes de vidro para o oceano ou submarinos que levam até os corais sem precisar se molhar.
Aquários podem ser educativos e seguros para crianças, mas os animais ficam aprisionados em cubículos enquanto o natural é serem livres nos oceanos. Instituições que buscam alternativas para se adaptar ao turismo sustentável têm encontrado soluções na realidade virtual. A imersão com vídeos 360 graus é maior e o dano ambiental é mínimo por não precisar da presença do animal. As cenas são gravadas em lugares onde a maioria de nós jamais chegaria.
Penguin Island, na Western Australia, é exemplo a ser incentivado. A ilha é um santuário natural de aves e colônia dos menores pinguins do mundo. Fica fechada no período de reprodução e não mantém os animais aprisionados. Clique no nome para saber como foi meu dia por lá.

Leia várias experiências de mergulho aqui.
PASSAR A MÃO EM LEÕES E TIGRES
Simplesmente não é natural tocar nos maiores carnívoros predadores do mundo animal sem ter um convívio prévio. É óbvio que foram dopados e maltratados. Quanto aos filhotes, fiz a interação na África do Sul e até aceitava porque nasceram na reserva criada para conter o avanço das cidades ao redor e ainda eram inofensivos. Depois fiquei pensando e tenho dúvidas se não foram comprados porque sempre tem filhotes, é uma das principais atrações do parque. Na dúvida, melhor evitar.
Leões são animais belíssimos de ver soltos na savana e perdem toda a grandeza quando enjaulados. Nenhum zoológico jamais vai substituir a emoção de um safari como conto aqui.

SHOW DE GOLFINHOS, FOCAS, BALEIAS, LOBOS-MARINHOS…
É muito natural esses animais darem um show em alto-mar. São exibidos, brincalhões e muito sociáveis. Triste é ver eles presos em piscinas, obrigados a serem bobos da corte para ganhar comida. Afinal, golfinho não abraça, foca não bate palma e baleia não beija, foram treinados pelo homem para serem entretenimentos lucrativos.
Quer fazer passeios com estes animais? Procure empresas que te levam até o local onde vivem sem a garantia de que irá encontrá-los. Será sorte e, quando acontece, se transforma em momentos mágicos como vivi em Shimoni e San Andrés. Mas não adianta empresas que levam comida e acostumam os animais a aparecerem em determinados horários. Isto também é uma forma prejudicial de treinamento muito comum para ver tartarugas marinhas. Recomendo a Animal Ocean para nadar com lobos marinhos em Cape Town.

TIRAR FOTOS COM ANIMAIS SILVESTRES
Jogue a primeira pedra quem nunca fez selfie com animais silvestres! Parece natural a ave vir e ficar parada no seu ombro ou a cobra fazer sessão de fotos de pescoço em pescoço durante uma apresentação. Geralmente acontece em santuários, hotéis ou fazendas na natureza e não notamos que a asa pode estar cortada ou o bicho treinado para repetir os movimentos. Na primeira situação, o animal aprendeu que é mais fácil obedecer e ganhar do que buscar a própria comida. Isto vai deixá-lo vulnerável no meio selvagem.
Quanto às cobras, existe o discurso de que é uma forma de as pessoas conhecerem e pararem de matar só porque o rastejante está na sua frente (no campo, isto é a realidade). Eu já tirei fotos com cobras algumas vezes e confesso, foi só para mostrar coragem e isto está muito errado. Deve haver outra maneira de proteger e “popularizar” as cobras.
O mesmo acontece com morcegos e, na Ásia, percebi como a minha consciência evoluiu nos últimos anos. Fui visitar um santuário de macacos em Bali e me deparei com um estande oferecendo fotos com morcegos gigantes. A pessoa insistiu para eu pegar no colo e abrir as asas para mostrar o tamanho na foto. Neguei, alegando que não era correto, e perguntei como estavam acordados se têm hábitos noturnos. Ela respondeu sorrindo que os treinava para ficarem acordados de dia e dormirem de noite desde pequenos. Ela não faz por mal, apenas não teve educação para isso ou não tem consciência do quão equivocada está. Neste caso, é mais fácil turistas negarem as fotos e ela desistir de explorar os morcegos do que tentar ensinar o quanto é errado.

Um trabalho incrível de reabilitação é feito no Parque das Aves em Foz do Iguaçu. Embora tenha a área de fotos, a prioridade é o bem-estar dos animais e não a do visitante.
VISITAR FAZENDA DE AVESTRUZ
O pior passeio feito na África do Sul foi visitar uma fazenda de avestruz e saber que o carnaval e a indústria da moda são os motivos da existência desses lugares. A pena da avestruz é caríssima, assim como são as botas e bolsas feitas com seu couro. Artigos de luxo para a minoria abastada. Não sou contra matar animais para consumo humano, desde que todos os pedaços sejam aproveitados sem desperdício. Isto seria o natural, usar apenas o couro e as penas para se fantasiar e desperdiçar todo o resto, é horrível.
O lugar conseguiu ser ainda pior quando nos levou para interagir com os animais e o destaque era montar na avestruz e tentar não cair da ave enlouquecida porque tinha a cabeça dentro de um saco. Este passeio não foi uma escolha minha, estava no roteiro e fui. O lado bom foi ver todos os meus companheiros de viagem chocados pedindo a retirada da atração do pacote. A alternativa é viajar de carro pelas estradas do Uruguai ou Austrália. Ver avestruzes correndo nos campos foi muito mais agradável do que presos na fazenda.


E você, o que acha da vida selvagem nem sempre ser entretenimento? Tem atrações verdadeiramente sustentáveis para recomendar? Por favor, use os comentários.
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7 Comments
Oi, Roberta
Perfeito o seu artigo, a vida de um animal nao deve servir para nosso entretenimento.
Observar e aprender com a natureza é bem diferente de trancafiar animais em jaulas ou sedá-los para que possamos nos divertir com eles.
Parabéns pelo artigo ♥
Correção : vida selvagem NÃO É entretenimento. Os animais devem ser respeitados!
Fernanda, observar a vida selvagem é entretenimento SIM e não há nenhuma falta de respeito nisso. Inclusive, adultos e crianças aprendem a repensar seus hábitos após viverem momento assim na natureza
Acredito que as pessoas sempre esquecem de perguntar qual a origem dos animais. Por exemplo, ursos polares, girafas e tantos animais de outros continentes. Qual o sentido de retirá-los de seu habitat natural para exibí-los em espaços limitados com a desculpa de que estão sendo protegidos,? Aqui na minha terra a última briga foi com o Parque Beto Carrero que afirma estar ajudando a salvar as girafas africanas da extinção. Será mesmo que elas precisam atravessar o Continente e ficar engaioladas para sua preservação? Será mesmo que o único recurso é esse?
Obrigada pelo seu comentário Carol. Vamos continuar questionando
Amei os comentários sobre Vida de animal nem sempre é entretenimento! pois nos esquecemos do sofrimento dos animais para nos entreter; é muito triste mesmo, eu já colaborei infelizmente para isto numa viagem recente. Deveríamos levantar uma bandeira para isto acabar!!
Aprovado Izaura, se cada um fizer a sua parte já será uma grande coisa