Parque Nacional da Lagoa do Peixe

Lagoa do Peixe para passarinhar e preservar

Ainda dá tempo de ver o Parque Nacional da Lagoa do Peixe lotado de pássaros. Entre outubro e abril, milhares de aves, migratórias e locais, dividem o espaço com caranguejos e animais silvestres ou das fazendas ao redor. Estive lá dias atrás, para participar do Festival Brasileiro das Aves Migratórias, e fiquei encantada com os cenários e a oportunidade de passarinhar com biólogos especialistas no assunto.

A Lagoa do Peixe, no leste do Rio Grande do Sul, estava há anos na minha lista de desejos e as pessoas se surpreendem por eu ter levado tanto tempo para conhecer. Afinal, para quem olha no mapa, basta atravessar a Lagoa dos Patos a partir da minha cidade natal, Pelotas; ou dirigir 200 km quilômetros a partir da capital Porto Alegre. Na prática, não é tão simples assim porque boa parte do caminho se chamava “estrada do inferno” até poucos anos atrás. E a balsa só faz a travessia no final da BR-101, conectando os municípios Rio Grande a São José do Norte, quando as condições climáticas são boas. Ou seja, a Lagoa do Peixe ficou séculos isolada e isto foi ótimo para preservar esse refúgio de importância mundial para as aves migratórias.

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O Parque Nacional da Lagoa do Peixe

A unidade de conservação ambiental foi criada na década de 80 a fim de proteger tanto o ecossistema litorâneo do Rio Grande do Sul quanto os pássaros que migram até o local. Desde então, foi reconhecida pela UNESCO como zona núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica; declarada Sítio Ramsar (lista das zonas úmidas de importância internacional); e incluído na Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas.

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Parque Nacional da Lagoa do Peixe
Parque Nacional da Lagoa do Peixe

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A Lagoa do Peixe é formada por um conjunto de lagoas, de água doce e salobra, rasas (cerca de 60 centímetros) intercalado por mata de restinga, banhados e dunas de areia fina. Isto em uma planície comprida entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, acabou por criar um ambiente ideal para abrigar e alimentar diversos animais. A área é um berçário natural para o desenvolvimento de espécies marinhas como camarão-rosa, tainha e linguado que, junto com os caranguejos, alimentam turistas, aves e a comunidade. 

Assim como aconteceu com a Lagoa dos Patos, estudiosos comprovaram a denominação equivocada e Lagoa do Peixe é, na verdade, uma laguna, por causa da comunicação com o mar. Aberta a maior parte do ano na chamada Barra da Lagoa, é responsável por proporcionar esta fartura entre água doce e salgada. 

O Parque Nacional da Lagoa do Peixe é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e tem entrada gratuita. A sede fica em Mostardas, na Praça Pref. Luis Martins, 30. Horário: de segunda à sexta das das 8h30 as 12h e das 13h30 as 18h.
Atração atual: exposição de arqueologia com artefatos encontrados na região segue até março.

O que fazer no Parque Nacional da Lagoa do Peixe

A Lagoa do Peixe vem ganhando visibilidade pelo crescente número de praticantes de birdwatching, mas é visitada há anos por jipeiros, motoqueiros e fotógrafos. Os últimos em busca de fotografar a via láctea, além da natureza. Inclusive, um boato diz ser possível visualizar a aurora austral por ali, até o momento ninguém conseguiu confirmar o fenômeno. Durante todo ano é possível encontrar animais marinhos descansando na praia ou avistar no mar como baleias e tartarugas. Vi um lobo-marinho filhote e mantive uma distância para não assustá-lo. 

Passarinhando na Lagoa do Peixe
Passarinhando na Lagoa do Peixe, ao total avistei 38 espécies em 4 dias

Quem não está interessado em natureza, vai encontrar um refúgio silencioso com oportunidade de experimentar a gastronomia e conviver com a comunidade. São pessoas simples e, ao mesmo tempo, de personalidade forte. A economia da região tem como base agricultura, pesca e pecuária de pequenos e grandes produtores rurais. Quando perguntei sobre os pratos típicos, o povo de Mostardas diz ser o cordeiro salobro; enquanto o de Tavares se orgulha do camarão da Lagoa do Peixe. Ainda desejo provar o cordeiro com esse tempero extra de sal e lembro com prazer o camarão empanado encharcado de limão do restaurante Totta’s.

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Como visitar o Parque Nacional da Lagoa do Peixe

Hoje é muito mais fácil de chegar e tem boa estrutura em hospedagem, alimentação e passeios nas cidades de Mostardas e Tavares. Mas o parque é selvagem, exigindo veículos 4×4 para não atolar, e está longe de ter a estrutura encontrada nos parques nacionais mais famosos. Por outro lado, tem a vantagem do custo acessível para estar em um cenário único no Brasil e a tranquilidade de visitar um lugar com poucos turistas. (Obs: em breve conto mais sobre a estrutura em casa cidade.)

Os acessos são por quatro trilhas (estradas de terra ou beira do mar), entre os municípios de Tavares e Mostardas. Os principais pontos de interesse são as pontes de madeira, trechos de mata nativa, o Farol de Mostardas e a Barra da Lagoa.

Entrada pela Trilha das Dunas
Entrada pela Trilha das Dunas

Trilha das Dunas

Corta áreas de restinga, banhados e dunas até chegar à praia, que fica fora dos limites da unidade de conservação e pertence à Mostardas. Nos 13 km é possível avistar inúmeras espécies de aves como maçaricos, garças e batuíras. Já na praia, estava repleto de trinta-réis, gaivotões e outros tipos de maçaricos.

Trilha das Figueiras
Cenário na beira da Lagoa do Peixe
Cenário na beira da Lagoa do Peixe

Trilha das Figueiras

Era a antiga rota usada por caminhões para escoar a produção agrícola até a estrada asfaltada mais próxima. Hoje é possível ver a sinalização, porém, carros podem percorrer apenas 6 Km de extensão até a margem da Lagoa, passando pela mata nativa. Ali avistei garças, talha-mar usando o seu bico para talhar a água em busca de alimento e pernilongos.

Vento faz as dunas mudarem de lugar
Vento faz as dunas mudarem de lugar

Trilha do Talha-mar

São 10 km de extensão percorrendo campos verdes da área norte da Lagoa do Peixe até alcançar dunas de cerca de 20 metros de altura. Logo no início, pude observar vários cisnes de pescoço preto, capororocas, maçaricos, polícia-inglesa, joão grandes, emas, colhereiros, biguás e vários outros. Ao chegar as dunas, parecia areia em ebulição, difícil sair do carro, mas lindo de ver as formas e o movimento criado pelo forte vento.

Maçaricos brancos são personagens de desenho animado famoso (crédito: Diego Luna Quevedo)
Maçaricos brancos são personagens de desenho animado famoso (crédito: Diego Luna Quevedo)

Trilha dos Flamingos

Com 43 km de extensão, ao lado do Oceano Atlântico de cor marrom, a trilha dos flamingos une o Farol de Mostardas à Barra da Lagoa do Peixe. A cor escura vem da areia e vegetação locais acumuladas na arrebentação. Tons de azul e verde se exibem no horizonte e podem chegar a beira conforme as correntes marítimas. 

Ao longo da praia observei facilmente graciosos maçaricos correndo para não serem pegos pelas ondas (principalmente os maçaricos-branco e de-sobre-branco). Também trinta-réis, gaivotas, talha-mar e piru-pirus. Os últimos quase sempre em pares indicando o território dos seus ninhos na areia. A Trilha dos Flamingos também pode ser iniciada no final da trilha do Talha-mar seguindo para o lado direito. A partir deste ponto, são 19 km até a Barra da Lagoa do Peixe.

Os famosos flamingos, pirupirus, talha-mar e gaivota na Barra da Lagoa
Os famosos flamingos, piru-pirus, talha-mar, maçarico e gaivota na Barra da Lagoa

Barra da Lagoa do Peixe

É o canal de comunicação entre a Lagoa do Peixe e o mar durante a maior parte do ano. A mistura da água salgada com a doce concentra grande número de aves migratórias. Visitei em dois dias e foi completamente diferente. Com vento enxerguei flamingos, gaivotas, maçaricos e piru-pirus, mas perceberam a minha aproximação e fugiram. Sem vento e com céu azul, parecia nevar com os pequenos maçaricos-brancos sobrevoando a minha cabeça, enquanto centenas de outras espécies se alimentavam na água.

Vista do alto do Farol de Mostardas
Vista do alto do Farol de Mostardas

Farol de Mostardas

Construído em 1940, é administrado pela marinha e não aberto ao público oficialmente. Mas os funcionários permitem a entrada e acompanham a visita quando não estão muito ocupados. Do alto dos seus 168 degraus é possível ver toda a Lagoa, o pequeno balneário e deve ser incrível olhar para o mar quando as baleias estão passando.

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Lagoa do Peixe para passarinhar (Observação de aves)

Voltando ao título, uma das exclusividades da Lagoa do Peixe é praticar observação de aves. Afinal, é um ambiente não encontrado em outro lugar do Brasil. O Parque é um santuário ecológico considerado um dos mais importantes refúgios para aves migratórias da América do Sul. Serve como local de alimentação e descanso para as aves manterem a energia e continuarem seu ciclo vital. Como ocorre com os maçaricos que viajam 16 mil quilômetros do Alasca até a Patagônia para fugir do frio e fazem o caminho de volta, todos os anos, para se reproduzirem no verão do hemisfério norte. Nesta longa jornada, fazem apenas cinco paradas e o Maçarico-de-papo-vermelho está em perigo iminente de extinção. Ou com os flamingos chilenos. Ave símbolo do parque vem do Atacama e este é o único lugar no Brasil onde pode ser avistada.

Esta região é tão importante para as aves migratórias que recebe um evento nacional, organizado anualmente, para buscar soluções de preservação de todo meio ambiente envolvido. E eu não podia ter conhecido em melhor momento. Inclusive, disse não ser praticante em texto anterior e, após assistir as palestras, percebi como sempre fui uma birdwatcher.

Birdwatchers profissionais na Trilha das Dunas
Birdwatchers na Trilha das Dunas

Festival Brasileiro de Aves Migratórias

É um evento realizado uma primavera em Mostardas, outra em Tavares e assim sucessivamente há 14 anos. Traz atividades voltadas à conservação do meio ambiente, oficinas, palestras e saídas guiadas para observação de aves. Realizado em praça pública, é gratuito e aberto aos turistas e comunidade para dialogarem com especialistas de diferentes partes do mundo.

Embora já tenham catalogado cerca de 35 espécies visitantes e outras 270 nativas dentro do Parque, meus amigos leigos sempre reclamaram por avistar pouquíssimas aves. Logo na primeira saída para passarinhar entendi o motivo da tal falta de aves. Eles não conhecem as espécies e passam reto pelo campo sem perceberem a quantidade de vida presente por ali.

Provavelmente eu faria o mesmo se não estivesse acompanhada pelos especialistas da SAVE Brasil. De dentro do carro começaram a dizer o nome de várias espécies e apontar para o mato, eu não via nada e perguntava onde. Eles me davam o binóculo, apontavam a direção do olhar e percebia uma ave pequena ou filhotes fofos. Depois desse empurrão inicial, comecei a ver um monte de espécies a olho nu e pedia ajuda só para identificar.

Bióloga da SAVE Brasil
Bióloga da SAVE Brasil

A Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), uma Organização Não Governamental vinculada à aliança global BirdLife International, e o Centro de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres do ICMBio (CEMAVE) trabalham no parque pela conservação de aves migratórias. Juntos, monitoram e ajudam a proteger a fauna através de pesquisa científica, educação ambiental e sensibilização do público. Durante o Festival acompanhei eles ensinando as crianças da região a aprenderem de forma simples o comportamento das aves.

O Festival é organizado pela administração municipal, Parque Nacional da Lagoa do Peixe/ICMBio e tem apoio da SAVE Brasil.

Veja mais fotos do Festival Brasileiro das Aves Migratórias:

Piru-pirus
Piru-pirus (crédito: Diego Luna Quevedo)
Ninho de Piru-piru
Ninho de Piru-piru na beira do mar
Pernilongo
Pernilongo
Maçarico Branco
Maçarico-brancos
Maçarico do Campo
Maçarico-do-campo
Biguás, cisnes e patos atrás dos cavalos
Biguás, cisnes e patos atrás dos cavalos
Um João Grande de cada lado
Um João-grande de cada lado
Quero-quero
Quero-quero
Talha-mar pescando
Talha-mar pescando
Cabeça-seca tranquilão na frente do carro
Cabeça-seca tranquilão na frente do carro
Criança curtindo a máscara que ganhou da SAVE Brasil
Criança curtindo a máscara que ganhou da SAVE Brasil
Polícia-inglesa
Polícia-inglesa com seu peito vermelho

Mapa do Parque Nacional da Lagoa do Peixe

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Tome Nota Parque Nacional da Lagoa do Peixe

Quando ir: o auge para passarinhar é entre outubro e novembro, quando acontece o Festival e a oportunidade de contato direto com especialistas. Verão é alta temporada e turistas aproveitam as praias, mas nunca fica lotado como as praias mais famosas do Rio Grande do Sul. Quem se interessa por baleias-francas e não tem medo de frio e umidade, elas passam pelas praias entre julho e outubro, temporada de migração entre Patagônia e Santa Catarina.

Quem leva: agências de Porto Alegre fazem passeios entre primavera e verão sem regularidade definida. E eu penso em viajar com um grupo em 2019. Se ficou interessado, entre em contato pelo formulário para ser avisado das próximas saídas.

Se prefere viajar de forma independente, precisa de um veículo 4×4 para visitar o parque sem atolar. Recomendo contratar o receptivo Lagoas Expedições para guias e transporte adequado.

Como chegar: o acesso mais prático por asfalto é feito a partir de Porto Alegre, através da RS-040 até Capivari do Sul; dali siga pela BR-101 até Mostardas. Então é preciso um carro 4×4 até uma das entradas localizadas entre os municípios de Mostardas e Tavares. Se estiver no sul do Estado, o trajeto mais perto é ir até Rio Grande; pegar a balsa até São José do Norte e seguir pela BR-101.

Existe transporte público pinga-pinga entre Porto Alegre e São José do Norte, e vice e versa, três vezes por dia. Porém, é difícil encontrar informação na Internet e as rodoviárias locais não abrem o dia todo para atender o telefone. Vá sem medo, mas considere um dia de viagem para ir e outro para voltar.

Cenário de praia isolada no Rio Grande do Sul
Cenário de praia isolada no Rio Grande do Sul

©Todos os direitos reservados. Relato 100% original, fotos de Roberta Martins e Diego Luna Quevedo. A viagem foi um convite da SAVE Brasil para participar do Festival

Roberta Martins

Roberta Martins

Publicitária, geradora de conteúdo sobre turismo, idealizadora deste site, fotógrafa e guia de turismo. Há 12 anos relata suas experiências de viagem focando em cultura e ecoturismo. Saiba mais na página da autora.

2 comentários

  1. Oi. Muito bonita a sua matéria. Bem completa e valeu a pena ler todo o texto. Estou em SP. Interior. Mas sou do rs. Conheci a Lagoa dos patos por São Lourenço do Sul. São as praias mais bonitas e menos divulgadas. Este passeio deve ser muito legal. Vai pra minha lista de futuras expedições. Belo trabalho.

    1. Obrigada Juliano. Eu levei anos pra conhecer e adorei. Pretendo voltar.

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