Laguna 69

Laguna 69: dicas para vencer a trilha


Se você segue perfis de paisagens na natureza, já deve ter visto a imagem de uma lagoa, de cor azul intenso, rodeada por montanhas cinzas com neve no topo, certo? Essa na foto de capa é a Laguna 69, no norte do Peru, e chegar até ela exigiu esforço imenso das três mulheres posando sua conquista. A trilha puxa bastante nossa mente e nosso corpo, mas não é impossível para quem tem o hábito de caminhar e toma alguns cuidados para amenizar a altitude. O relato e as dicas a seguir são de quem ficou bem ruim e precisou de atendimento médico dois dias antes por causa do mal de altura — eu, a autora no lado direito da foto.

A Laguna 69 é o destaque do Parque Nacional Huascarán. Localizado na província de Ancash, norte do Peru, possuí neve permanente no topo das montanhas que dá origem às centenas de lagoas por todo o território. As chamadas cordilheiras Branca e Negra, desejadas por alpinistas do mundo todo, ficam na região e abrigam a montanha mais alta do Peru. Huascarán  (6.768 m) acompanha boa parte da trilha e se exibe nos dias com melhor visibilidade assim como outras belas montanhas no parque.


O QUE FALTA PARA TIRAR ESSE ROTEIRO DO PAPEL?

Acesso rápido: O preparo | A trilha | O tour | Quando ir | Como chegar | Como se vestir | Porque esse nome

Laguna 69 (crédito: Ana Duék)
Laguna 69 (crédito: Ana Duék)

O preparo

Enquanto muitos viajantes afirmam ser a trilha mais difícil feita por eles, já relatei como as travessias são bem mais exigentes no texto “As dores de uma trilha longa”. Nesse contexto hiking (trilha de um dia), a Laguna 69 está entre as piores por conta da altitude, mas nem perto do medo que eu senti em Drakensberg, embora possa se deparar com um terremoto (ainda não vi relatos). De qualquer forma, todas elas precisam de preparo físico e mental semanas antes, cuidados dias antes e roupas adequadas.

É imprescindível ter o hábito de fazer caminhadas e estar em bom condicionamento físico. Costumo treinar resistência, equilíbrio e respiração meses antes de fazer uma atividade na altitude. Quando alcanço os 3 mil metros de altura, ou mais, deixo de beber álcool, cuido minha alimentação, tomo muito chá de coca e evito movimentos bruscos. Pessoalmente, preciso de 3 dias de aclimatação antes de realmente fazer alguma aventura, já outras pessoas não sentem nada. A verdade é ser impossível saber como o corpo vai reagir, por exemplo, não senti na primeira ida ao Peru e passei mal na base do Aconcágua anos depois (talvez por ter ignorados os cuidados).

  • Na véspera e café da manhã é recomendado comer carboidrato para dar energia, carne vermelha, frituras e bebidas alcoólicas são prejudiciais. 
  • Na noite anterior deite cedo e descanse bem para recuperar as energias.
  • Para a trilha levei térmica com chá de coca, água para beber pouca quantidade com muito frequência e alimentos práticos de pegar para mastigar a qualquer hora como cereais e chocolate. Indico fazer o mesmo.
  • Por fim, preste atenção aos sinais do seu corpo, peça ajuda ao guia se precisar e respeite os seus limites. 
Café da manhã no hotel Custa Serena
Carboidrato no café da manhã
Ponte no caminho para a laguna 69
Vestida para frio, calor e chuva

O texto continua após os serviços recomendados no destino.

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A trilha para a Laguna 69

São 15 km feitos em cerca de 6 horas (ida e volta) onde a dificuldade depende do condicionamento físico e adaptação a altitude de cada um. O trajeto a pé começa a  3800 metros de altura e a Laguna 69 está a 4600 metros. 

A primeira parte é plana seguindo o curso de um riacho dentro de um vale. É a fase mais fácil e seria bom acelerar se não fosse a tal altitude. Qualquer movimento brusco pode gerar mal-estar. O ideal é manter o ritmo durante toda a trilha e poupar energia para trechos mais inclinados.

Início da trilha para a Laguna 69
Início da trilha é plano (crédito: Marcos Cenevive)

A subida começa em zigue-zague com visual de tirar o fôlego. Cachoeiras caem das geleiras e a vegetação fica mais fechada, porém sem sombra para proteger do sol. As placas indicam faltar 5 km e continuamos todos bem, tirando fotos e batendo papo. Quando faltavam 3 km, o grupo estava dividido e a guia pedia maior concentração no caminho ou restaria pouco tempo na lagoa. Então notei algumas pessoas voltando, alguns haviam desistido, outros finalizavam a meta satisfeitos.

5 km para a Laguna 69
Karina, eu e Ana (crédito: Thiago Carvalho)

Quando alcancei a segunda parte plana (bem mais curta) estava sozinha. Vi uma lagoa ao lado direito e abri o sorriso confiante, mas uma placa Laguna 69 apontava outro caminho em direção a uma enorme rocha escura e mencionava 1 hora restante. Talvez tenha sido a placa mais decepcionante da minha vida de trilhas, mas o cenário continuava lindo e segui com os amigos que foram chegando aos poucos.

Paredão final
Última montanha antes da Laguna
Laguna 68
Laguna 68

O último trecho é uma subida sem fim, íngreme e em zigue-zague. Um número maior de pessoas descia nos encorajando enquanto alguns poucos quase nos atropelavam querendo escapar da chuva. Quando o meu corpo deu sinais de esgotamento, decidi cancelar as paradas para descanso ou não chegaria. Limpei minha mente, foquei no objetivo, conversei com a montanha e segui passo por passo bem devagar. As meninas ficaram para trás e depois uma delas disse que me ver cada vez mais alto foi a motivação para não desistir.

Então me deparei com esse azul cintilante. As forças voltaram só de olhar e a sensação de alívio e conquista fizeram as lágrimas brotarem de emoção.

O tour Laguna 69

É um passeio de um dia partindo de Huaraz, considerando o trajeto na estrada. Saímos dos arredores de Huaraz, exatamente do hotel Cuesta Serena, logo após o nascer do sol e deveríamos ter saído antes porque o estacionamento já estava lotado de ônibus e vans quando chegamos, como um dos guias havia alertado. Viajes Pacífico foi a empresa recomendada pelo governo do Peru e responsável por todo o roteiro desde Lima. Além do transporte, providenciaram bastões de caminhada, ingresso, lanche de trilha, água e acompanhamento de 3 guias (2 locais) que foram essenciais quando o grupo se separou conforme as condições físicas. 

Os mais preparados chegaram a Laguna 69 em menos de 3 horas, levei 4 horas e alguns desistiram antes da parte mais difícil. Os guias se comunicavam por rádio o tempo todo e combinavam quem iria voltar ou continuar para os turistas não ficarem sozinhos, ou se perderem. A preocupação comigo era constante por eu ter passado bastante mal dias antes, mas eles se surpreenderam com a minha recuperação. Na volta começamos juntos e também houve divisão, no entanto, um dos guias que não chegou ao topo, estava nos aguardando no meio do trajeto na chuva e sozinha porque fomos os últimos a deixar o parque naquele dia. 

E no início da trilha, teve um ritual para pedir permissão e proteção às montanhas que protegem a Laguna 69. A guia ofereceu folhas de coca, disse algumas palavras para repetirmos e pediu para cada um escolher um lugar para deixar as folhas como oferenda a Pachamama (mãe terra). 

Lanche de trilha
Almoço oferecido no tour
Folhas de coca
Folhas de coca no ritual de início
Laguna 69
O grupo que chegou a Laguna 69

Quando fazer a trilha

A melhor época é entre junho e agosto, quando o clima está firme e frio, mas o parque estará aberto o ano todo. Há chances de pegar tanto sol como chuva ou neve.

Montanhas nevadas e cachoeiras no caminho
Montanhas nevadas e cachoeiras no caminho em novembro
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Como chegar

O mais indicado é contratar um tour em Huaraz ou se hospedar na região. Há opções simples na comunidade que organizam passeios. Para quem ainda não olhou no mapa e quer conhecer o melhor do Peru na mesma viagem, saiba que Machu Picchu fica no sul e Laguna 69 no centro do país (distante 8 horas do aeroporto mais próximo em Lima). Ou seja, não dá para fazer bate e volta de Cusco a Huaraz. Deve escolher uma cidade ou outra como eu fiz em duas viagens, ou permanecer mais tempo no Peru. Para fazer só essa trilha precisa de 3 dias considerando o tempo na estrada. 

Como se vestir

Sentir frio é uma certeza e se começar a chover granizo pode ser congelante como foi nesse dia. No entanto, quando o sol aparece e nosso corpo está em movimento, a vontade é de usar bermuda e camiseta. Portanto, você deve se vestir em camadas pensando em todos os tipos de clima. Calçado e casaco impermeável são imprescindíveis. Eu vestia calças que foi a salvação para amenizar o frio, ela me deixou seca e não deixou a água escorrer para dentro da bota como aconteceu com alguns amigos, já o casaco está na hora de trocar. A impermeabilidade tem prazo de validade.

Para saber quais peças levar e como suportar o frio, sugiro se basear nos equipamentos levados para o Salar Uyuni. Apenas lembre das peças impermeáveis e ser passeio de um dia. A última aquisição (não consta no texto) é calças para o clima ártico que serão úteis em qualquer trilha com risco de chuva.

Porque o nome Laguna 69

Existem algumas versões para essa história, a contada pela minha guia faz sentido. Segundo Suzane, a região de Huaraz é uma zona de terremotos devastadores, mas o povo nunca desiste de reconstruir e tocar a vida mesmo assim. Em uma desses desastres uma cidade inteira ficou debaixo d’água depois de um pedaço de rocha enorme cair em uma lagoa e a água vazar na comunidade como um tsunami vindo das montanhas. Então o governo da época solicitou a contagem de todas as lagoas da região para avaliar riscos. Na época foram 300 nomeadas por um número e esta ficou 69, bem perto da 68. Hoje não encontrei dados exatos sobre a quantidade de lagoas na região, dizem ter aumentado para 700 por conta do aquecimento global, outros afirmam 400. De qualquer forma, o número sempre será incerto por causa do degelo e as mudanças geológicas causadas pelos terremotos.

Pose para foto na Laguna 69
Pose para foto na Laguna 69
Vacas no caminho
Cenários para a Laguna 69
Paisagem na trilha para a Laguna 69
Cenário para a Laguna 69
Guia acompanha os últimos e os primeiros
Sinalização Laguna 69
Montanhas nevadas e cachoeiras no caminho
Flores no caminho
Riacho no início da trilha
Frutinhas na copa das árvores endêmicas

© Todos os direitos reservados. Fotos e relato 100% originais.

Roberta Martins

Roberta Martins

Publicitária, geradora de conteúdo sobre turismo, idealizadora deste site, fotógrafa e guia de turismo. Há 13 anos relata suas experiências de viagem focando em cultura e ecoturismo. Saiba mais na página da autora.

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