A noite no deserto caiu serena e tranquila. Estamos a uns vinte quilômetros de M'Hamid, última cidade antes do Sahara, quase na fronteira com a Argélia. São aproximadamente 18:30 e a escuridão tomava conta de tudo, impiedosamente. Lahcen, nosso guia, armou a tenda perto de uma duna, onde brotava uma grande árvore.

Sentia frio. A areia gelada e o vento faziam a sensação térmica despencar. Mas ninguém parece ligar para isso. Tínhamos acabado de jantar uma salada marroquina, cheia de cominho e temperos exóticos. Como Mohamed, nosso cozinheiro, conseguia preparar uma salada tão fresca e saborosa em pleno deserto é para mim uma coisa tão enigmática como os mistérios das Mil e uma Noites.
Atravessar o Sahara é uma experiência diferente de tudo. É como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros e quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã toda com a nítida sensação de estar em Marte. Só faltava o robozinho da Nasa sair vagaroso detrás de uma daquelas montanhas de areia.
Me encontro deitado num grande tapete persa posicionado estrategicamente à beira da fogueira. Os olhos estão fixos no céu e o mar de estrelas que se abria é algo difícil de descrever. Surreal quanto um quadro do Dali e irreal como um sonho bom. Com certeza, o firmamento mais estrelado que já vi na vida.
Dou até uma de astrônomo:
- Olha lá gente, aquela ali é a constelação da ursa maior...
- Onde?
- Ali, olha só... A primeira estrela forma o olho, a segunda o ouvido,
a terceira a pata...
- Nossa! É mesmo... e aquela ali, parece um camelo...
Ficamos lá ao ar livre, na escuridão total, admirando aquela infinidade de pontos e luzes. Para completar o clima, os guias tocavam com instrumentos improvisados algumas canções em volta da fogueira. Apesar da letra ser incompreensível, a melodia e o ritmo logo nos envolve. Pergunto a Lahcen sobre o que as músicas falam e ele responde: “muitas coisas ... sobre a vida, o deserto, camelos e amores...”
Dou uma olhada 360 graus e não consigo enxergar nada. Em quilômetros, a única luz a desafiar aquele oceano de trevas é a da fogueira. Tudo em volta é escuridão, silêncio, ausência, deserto. Acima de nós, a lua brilhava fina e majestosa, tal qual o símbolo do Islã.
Sob o olhar atento da Ursa Maior, viajo em pensamentos. Lembro da saída de M'hamid, dos primeiros passos na areia, da “cavalgada” no dromedário, do pôr-do-sol em meio as dunas e das palavras do Lahcen:
- Meninos, a experiência no deserto é simples... é viver as coisas simples. Você tem que respirar, ouvir o som do vento, colocar o pé na areia, sentir o deserto, sentir a si mesmo... então tenha o seu tempo!
O poema de Vinicius de Morais “Olha aqui Mr. Buster” é dedicado a um americano rico. Segundo Vinicius, Mr. Buster não podia compreender como, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America". Começa assim:
“Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo que o Sr. tenha no quintal de sua casa em Hollywood um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia. Está tudo muito certo, Mr. Buster que o Sr. ainda acabará governador do seu estado. E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas. Mas me diga uma coisa, Mr. Buster. Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo? ”
Me permito a ousadia de acrescentar:
O Sr. sabe lá o que é admirar um céu enfarinhado de estrelas ?
O Sr. sabe lá o que é ver um pôr-do-sol em cima de uma duna de
areia?
O Sr. sabe lá o que é escutar música Berber na beira de uma
fogueira?
O Sr. sabe lá o que é caminhar escutando somente sua respiração?
O Sr. sabe lá qual o gosto da salada do Mohamed?
Como diria Lahnce, com seu jeito sereno, impassível.
– Macan musque (Sem problemas em árabe). Tenha o seu tempo, respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Entre em contato com você mesmo. Viva as coisas simples da vida.
Davi Carneiro é baiano, jornalista, viajante, blogueiro de viagens, aprendiz de escritor e aluno do Master de Periodismo de Viajes em Barcelona.
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