Quantas vezes já ouvimos que a beleza é relativa? Berlim é a melhor ilustração desse pensamento. Afinal, na capital da Alemanha, tudo o que é belo é relativamente belo. É relativo porque tudo o que é belo, em Berlim, não o é somente pela aparência ou pelo visual, mas por sua representação e sua memória.

As ruínas do Muro, os prédios pela metade ou em eterna reconstrução, a frieza da arquitetura da cidade que foi refeita às pressas, mas que segue até hoje inacabada, a aparente falta de equilíbrio entre os dois lados, o presente peso do lado oriental, a eterna culpa por um dos grandes erros da humanidade, e a expressão de todos esses sentimentos na cultura, arte, nos restos, nos rostos, na vida e no cotidiano de cada habitante. Essa é a beleza de Berlim.
Poderia ser tristeza, poderia ser vergonha, mas é um recomeço e uma nova tentativa para um pais irracionalmente dividido e hoje reunificado, mas ainda não restabelecido. E todo o renascer de um povo que tenta superar as feridas da sua própria destruição moral devido à tentativa de extermínio de um outro e inocente povo exala uma profunda consciência e esperança por onde quer que se vá. Não poderia ser mais relativamente belo.
KUNSTHAUS TACHELES (Casa de Arte Tacheles) - Em Berlim Oriental, figura um dos lugares mais interessantes de arte moderna da Europa. Um prédio de cinco andares que congregava, até então, galerias de arte, ateliês, um cinema, bares/cafés e um clube noturno.
Reduto de artistas e da cultura underground, a construção em si já era um espetáculo à parte. As paredes pixadas, a escadaria obscura, os grafites sobrepostos, as esculturas perdidas, os restos de colagens nas escadarias fazem parte da expressão artística contemporânea que representa esse icônico prédio.
O Tacheles foi construído entre 1907 e 1908 e, resumidamente, já foi centro comercial, sede de empresa de eletricidade, de banco, sede e presidio da SS, sobreviveu mesmo a um incêndio, e foi tomado por um grupo de artistas depois da queda do Muro. No cinema, foi imortalizado em « Good bye, Lenin! »; é o clube que o casal Alex e Lara frequentam à noite.
Confesso que não sei como está hoje o funcionamento do Tacheles, já que o governo negociava a evacuação do prédio ha vários anos. Parece que alguns artistas foram resistentes à saída, embora o cinema e o restaurante tenham aceito a proposta anônima de um milhão de euros para desocupar o lugar. A verdade é que o futuro do Kunsthaus Tacheles é incerto e, quem tiver a oportunidade de passar na Oranienburger Straße (Mitte) enquanto ele ainda existe, não deixe de fazê-lo.
ALEXANDER PLATZ – Fica em Mitte, próxima da Fernsehturm, a monumental torre de televisão. A praça, que abrigou os festejos da queda do Muro em 1989, também acolhe a Brunnen der Völkerfreundschaft (Fonte da Amizade entre os Povos) e o Relógio da Hora no Mundo - um relógio rotativo que mostra a hora em cada lugar do planeta.
BERLINER FERNSEHTURM – Com 368 metros, a torre de televisão de Berlim é a estrutura mais alta da Alemanha e a quarta maior da Europa. Ao pegar o elevador e subir até o globo, que abriga um restaurante, é possível ter uma panorâmica da cidade.
Também vale a pena passear pelo parque nos arredores da torre, apreciar a Fonte de Netuno e o Monumento de Marx e Engels. Tive a sorte de estar em Berlim na primavera e poder apreciar as primeiras flores da estação: o parque da torre de televisão estava tomado por rosas.
TIERGARTEN – é um dos principais parques e um dos principais espaços verdes de Berlim. Um lugar legal para fazer um piquenique, uma pausa na mochilagem ou mesmo tirar um cochilo (ao menos durante a primavera/verão).
SIEGESSÄULE (Obelisco da Vitoria) – Nos arredores do Tiergarten, esta a famosa torre do anjo, imortalizada no Wings of Desire (em português, Asas do Desejo - meu filme preferido), do diretor alemão Win Wenders. Construído em 1873 para comemorar as vitórias militares da Prússia sobre a Áustria, Dinamarca e França entre 1864 e 1871. Um dos únicos monumentos que eu fiz questão de subir, porque não tinha fila e eu queria encontrar Damiel (personagem principal do Wings of Desire) lá em cima.
MEMORIAL DO HOLOCAUSTO – Também conhecido como Memorial para os Judeus Assassinados da Europa, a obra é da autoria do arquiteto Peter Eisenman e engenheiros do Buro Happold. O Memorial consiste em quase três mil blocos monocromáticos de concreto de diferentes tamanhos, num espaço de 19 mil metros quadrados. A sensação desse local não é das melhores – o que é claramente o objetivo da obra. Ao caminharmos entre as colunas, corredores desnivelados dão a impressão de ondulação e instabilidade. O som dos nossos próprios passos causam desconforto, sem falar da sensação de claustrofobia ao caminhar pelos corredores. O cinza, as formas e o peso do local me lembraram um cemitério - nesse caso vazio -, mas com uma notável e dolorosa presença.
PORTÃO DE BRANDENBURGO – um dos principais símbolos de Berlim e antigo portão da cidade (o único remanescente), da época em que as cidades eram fortalezas. Símbolo da prosperidade e da unificação alemã, a calçada dos arredores do portão ainda conserva as marcas do Muro.
POSTDAMER PLATZ – onde os alemães conservam uma boa parte do Muro. No Checkpoint Charlie da Friedrichtrasse, esta a passagem mais célebre dele.
MUSEU JUDAICO DE BERLIM – uma experiência triste, mas necessária. Imenso e rico, reúne documentos, fotos, pertences, obras, homenagens e uma boa parte da historia desse povo injustiçado (passamos um dia inteiro e não conseguimos ver tudo). Foi lá que eu descobri que os primeiros indícios da civilização judaica foram registrados no território que um dia viria a ser a Alemanha.
Uma das obras mais impressionantes (e mais tristes) que eu já vi fica no Museu Judaico; chama-se Shalekhet (Fallen Leaves), de autoria de Menashe Kadishman, um célebre artista israelense. Ele reuniu milhares de rostos feitos de metal no chão de uma sala do local. A experiência que propõe a obra é de sentir a opressão e a tristeza desses « rostos » ao caminhar pela sala e, consequentemente, por cima deles.
KAISER-WILHELM-GEDÄCHTNISKIRCHE - no centro da antiga Berlim Ocidental, a igreja foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e uma boa parte da construção foi destruída. O que sobrou não foi jamais restaurado, com a intenção de lembrar constantemente à população as consequências da guerra.
PALÁCIO DO REICHSTAG – essa construção de mais de 100 anos é onde o Parlamento federal da Alemanha (Bundestag) exerce suas funções. Aberto à visita, atrai muitos turistas pela vista da cidade e do plenário do parlamento.
Cultura e jovialidade onipresente – além desse eterno peso das guerras, da separação e do desequilíbrio ainda presente da reunificação, Berlim transpira arte e cultura. Aproveite a arte de rua e a imensa gama de museus. Esse dinamismo e reflorescimento cultural atrai muitos artistas, jovens, estudantes e amantes da capital alemã – o que cria uma atmosfera jovial. Os inúmeros bares e restaurantes descolados, festas e as famosas noites da capital reforçam essa característica. Calibre suas pernas para as longas noitadas berlinenses e divirta-se!
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